O pessimismo, a desilusão e a melancolia em “Piquenique na Estrada”

Cena de Stalker: Adaptação cinematográfica feita por Andrei Tarkovski em 1979

Existe algo a mais perambulando entre as montanhas de lixo deixada pelos alienígenas durante a visitação, assim como existe algo além da auto-declarada despretensiosidade dos irmão Strugátski ao escreverem “Piquenique na estrada”. Uma obra que se dissimula simplória, apolítica e puramente especulativa que esconde, sob os escombros alienígenas, os personagens marginalizados e a linguagem seca, uma das mais fortes e profundas imagens sentimentais que li num livro de ficção científica. “Piquenique na estrada” é um livro melancólico e triste, que carrega uma pesada ambientação de pessimismo e a desilusão, reflexo da situação em que seus protagonistas são jogados, assim como o próprio contexto literário e de mudanças e apreensão que o mundo e a antiga União Soviética passavam pós segunda-guerra. A obra de Arkádi e Boris Strugátski diz muito, significa muito, através de pouco e de recursos bastantes sutis. Este post é dedicado ao modo pelo qual os irmãos soviéticos exploram o pessimismo, a desilusão e a melancolia em seu universo fictício de “Piquenique na estrada”

Solidão cósmica

Eu sempre me senti bem em estar sozinho. Tive poucos amigos durante a infância e devo ter passado mais tempo no meu quarto do que a grande maioria das crianças. Estar sozinho era me sentir dono de mim mesmo, era me sentir auto-suficiente e, lá no fundo, um ato de amor-próprio. Tudo isso até eu receber alguma recusa de convite. Até ver meus poucos amigos fazendo alguma atividade da qual não fui convidado. A sensação da rejeição modificava completamente o contexto. O quarto, que antes era um refugio, torna-se um cárcere. Estar sozinho já não me fazia sentir auto-suficiente, mas sim tão desprezível que a solidão tornava-se minha única opção.

S.T.A.L.K.E.R. uma série de jogos baseados no romance

Acredito que esse seja um sentimento próximo aos que os humanos tiveram após a visitação alienígenas em “Piquenique na estrada”. A metáfora é excelente, os alienígenas pararam por algumas horas num “acostamento cósmico” com seus brinquedos, suas comidas e sua festa num grande piquenique. Foram embora deixando o lixo para trás sem se importarem com os insetos e roedores que lá costumam vagar, já que estes nada poderiam compreender de seus atos. A visitação alienígena imaginada pelos irmãos Strugátski não trouxe nenhuma euforia pelo descobrimento de vida inteligente fora da terra, não trouxe nenhum alento ao sabermos que não estamos sós. Ao contrário, trouxe o sentimento de solidão, a auto-depreciação humana e um estado generalizado de melancolia. Não estamos a sós, é pior, estamos sozinhos, presos em nosso planeta já que os alienígenas nos desprezam, não nos acham dignos de conversas ou de explicações. A solidão não é mais uma escolha e sim a falta de alternativa.

Pessimismo humano

Explorei neste outro post como algumas obras exploram o limite da compreensão humana ao terem contato com alienígenas e a sensação do “absurdo” gerada por esse sentimento de incompreensão do outro. Mas, ao contrário de “Contato” de Carl Sagan, onde os alienígenas tentam nos contactar, em “Piquenique na estrada” a incompreensão se dá, sobretudo, pelo completo desprezo dos alienígenas, que sequer notam nossa existência. Situação semelhante é criada por Arthur C. Clark em “Encontro com Rama”, onde uma nave passa pelo nosso sistema solar sem se importar com nossa existência. Mas, ao contrário do universo de Rama, os humanos do romance soviético se comportam como os personagens de romances russos geralmente se comportam: Tornam-se melancólicos e criam sentimentos pessimistas de auto-depreciação.

“Piquenique na estrada” tem um ar carregado de pessimismo e melancolia. O lixo deixado pelos aliens tornam-se artefatos de alto valor científico e econômico, surgem contrabandistas, os “stalkers”, que arriscam sua vida entrando nas Zonas de visitação para procurar artefatos incompreendidos pela razão humana, muitos dos quais os expõe a riscos de morte e danos permanentes. É neste ambiente de máxima degradação que o pensamento de Red refletem todo o pessimismo humano que se abateu na terra.

Descrença proliferada

Quando as pessoas entram num estado de pessimismo, desilusão e medo generalizado colocam, sob suspensão, várias crenças até então aceitavam em consenso. Os alicerces do pensamento passam a serem questionados e novas formas de pensar – muitas das quais impulsivas, ilusórias ou truculentas – emergem desse novo contexto de aparente caos. O pessimismo quanto às capacidades e os sentimentos da humanidade levou, na obra, a uma descrença proliferada em todas as instituições sociais. A família perde seu caráter imaculado, o Estado se apresenta como uma instituição corrupta e a ciência perde sua legitimidade ao competir com novas crenças mágicas que procuram explicar o funcionamento da sucata alienígena. Junto a isso a degradação moral dos humanos a qual Red tanto reclama – e torna-se cúmplice – ao longo do romance.

Por trás da suposta despretensiosidade, “Piquenique na estrada” esconde um profundo romance sobre os sentimentos humanos, sobre a sensação de desprezo e de inferioridade. É uma obra pessimista, melancólica e desiludida, porém bastante crível e realística. Ilustra sentimentos que acompanham historicamente as grandes mudanças repentinas e seus impactos sociais. O que seria o apelo popular a regimes totalitários como o nazismo e o fascismo se não a descrença e a desilusão na própria humanidade? O que é a recente onda de deslegitimidade cientifica e a ascensão da ignorância enquanto via política se não um sentimento proliferado de que, no fundo, somos como insetos observando, sem entender nada, o lixo de um pequinique que não fomos convidados?